A ideia do Damásio
Para já, a ideia de que o Benfica é nosso e há-de ser, está presente de forma muito significativa na minha cabeça. Depois, certamente por estupidez e não por desonestidade intelectual, os argumentos por si utilizados são de bradar aos céus.
É comum, de tempos a tempos, surgirem ideias peregrinas que, com a conivência da comunicação social que se demite de questionar os "pensadores", tornam-se verdades absolutas. No fundo, o deserto de ideias dos nossos opinion makers é abençoado por um breve aguaceiro que, infelizmente, sem que se pense muito no que se está a dizer, se consubstancia numa teorização assente em factos deturpados ou falsos.
Esta característica não é exclusiva do mundo do Benfica. Quem não se lembra das milhares de crónicas que argumentavam cegamente em favor das Sociedades Anónimas Desportivas? Ou ainda, das ligas profissionais ou da profissionalização dos colaboradores dos clubes?
Passados uns anos, os outrora apelidados de velhos do restelo são, sem quaisquer benefícios, detentores da razão. Não é que desejem para si o reconhecimento de que afinal até tinham razão mas não ficaria nada mal que os Searas desta vida tivessem a humildade de afirmar "No passado equivoquei-me, fui apanhado por uma moda".
Não pretendo com isto dizer que os exemplos acima referidos constituam, em todos os casos, um foco de retrocesso no desenvolvimento de um clube ou de uma modalidade. Os recentes casos de pre-falência de SADs, a extinção da Liga de Basquetebol e a continuação de problemas no futebol português ou a incompetência de inúmeros dirigentes profissionais de clubes não colocam, por si só, em causa os modelos de gestão adoptados.
Da mesma forma, os jargões ou ideias feitas dos opinion makers que se tornam rapidamente em clichés do povo não são, por si só, verdades absolutas.
Neste contexto, as recentes declarações do Manuel Damásio poderão atingir este patamar - o do cliché da moda. Eu acredito na sinceridade do Manuel Damásio. Acredito igualmente que as suas intenções são as melhores e isto, para mim, significa que são as melhores para o Benfica. Considero que foi um Presidente razoável, que pegou no Benfica numa situação financeira difícil pós problemas pessoais do Jorge de Brito e, não obstante os inúmeros erros na sua política desportiva, sem alienar qualquer património, deixou o clube numa situação melhor do que aquela que encontrou quando chegou.
E é precisamente por isto que mais me estranha as suas recentes afirmações. Para já, a ideia de que o Benfica é nosso e há-de ser, está presente de forma muito significativa na minha cabeça. Depois, certamente por estupidez e não por desonestidade intelectual, os argumentos por si utilizados são de bradar aos céus.
Diz o Manuel Damásio que "há que copiar o que os outros fizeram bem", referindo-se ao Manchester United, Liverpool, Milan e Inter, por exemplo. Não por acaso, estes clubes são ingleses e italianos onde, desde sempre, os clubes são de alguém e não de todos. Clubes como o Real Madrid, o Barcelona ou, porque não, o porto, que são de todos e não de um poderoso investidor, há muitos anos que estão arredados de títulos...
O outro grande argumento por si utilizado é que tal alteração na forma como se percepciona o Benfica, possibilitaria um encaixe financeiro muito significativo. Não querendo entrar pelo campo de que, para alguns, tudo tem um preço, no mínimo, penso que é importante salientar a confusão.
A alienação de acções da SAD serviriam quem? Os accionistas, claro está. Quem são os accionistas? Vilarinho como testa de ferro de alguns, por exemplo, o BES, o Luís Filipe Vieira, muitos pequenos accionistas, o Sport Lisboa e Benfica e a Sport Lisboa e Benfica SGPS.
No fim de contas, o principal detentor de capital de empresas como a Benfica Estádio ou a Benfica Multimédia, o Sport Lisboa e Benfica, tornar-se-ia uma entidade rica. O Sport Lisboa e Benfica, SAD, nas mãos de um qualquer Berardo, oscilaria entre uma suposta vontade de conquista de títulos e uma necessidade previsível de retorno do investimento. Seria um Benfica diferente, sem dúvida, mas tal alteração, significaria que os campeonatos começariam a ser ganhos por decreto?
Claro que não! Imaginem a seguinte situação: Um qualquer poderoso investidor contrataria um treinador com algum currículo, gastaria mundos e fundos numa reestruturação do plantel e, ao fim de uns anos, olharia para trás e pensaria "Já viste Margarida, mais valia ter estado quieto quando contratei o Artur Jorge".
É isto que não se continua a perceber. Mais do que modelos de gestão ou profissionalismo, é preciso competência. Talvez devido há muitos anos não a reconhecermos em quem dirige o nosso clube é que tão rapidamente nos esquecemos da sua importância..



Comentários (-1 postado):