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Foi por isso que estranhei as palavras que ouvi serem atribuídas a Carlitos, jogador do Basileia, quando este se deslocou a Alvalade. Supostamente, Carlitos ter-se-á confessado um benfiquista ferrenho. Mas, em simultâneo, terá dito que, em Portugal, só joga no FC Porto.

Sempre quis ser jogador do Benfica. É natural. Todos os miúdos, enquanto tal, querem jogar à bola pela vida fora. A resposta à pergunta “o que queres ser quando fores grande?” é comum e habitual. Há, porém, uma diferença. Eu nunca quis ser jogador de futebol. A explicação vem sob a forma de valor: sob os jogadores de futebol pende uma insuportável aura de profissionalismo que eu, enquanto fanático benfiquista, jamais suportaria. Festejar golos marcados por e contra equipas que nunca nada me disseram não seria motivo de festa ou de orgulho, mas de simples atitude. Os grandes jogos nunca seriam grandes jogos e a história que pudesse ser escrita teria um valor diminuto. Depois, ser-me-ia pedido que jogasse com paixão e fervor, que honrasse a camisola de um clube ao qual não pertenceria jamais. Ora, sempre tive alguma dificuldade em perceber como é que alguém que não é de um clube pode honrar a sua camisola, mas depois partir, simplesmente, quando lhe fosse feita a melhor oferta. O problema, creio, é mesmo esse: ser do Benfica, jogar pelo Benfica, representar o Benfica jamais poderia ser visto como uma profissão. Tenho para mim que entraria em campo munido do mesmo fervor que os fundamentalistas islâmicos, pronto a detonar defesas e adversários. “Colegas de profissão” seriam, apenas, os colegas de equipa. Não haveria lugar a contemplações. Cada golo marcado ao FC Porto seria festejado de punho erguido e com um “É Porto, é (palavrão à escolha)” debaixo da língua. Os flash interviews seriam espaços de propaganda e, quiçá, de insulto nivelado. E os golos seriam todos dedicados às glórias do passado.

Foi por isso que estranhei as palavras que ouvi serem atribuídas a Carlitos, jogador do Basileia, quando este se deslocou a Alvalade. Supostamente, Carlitos ter-se-á confessado um benfiquista ferrenho. Mas, em simultâneo, terá dito que, em Portugal, só joga no FC Porto. Confesso que tenho dificuldades em entender como é que um benfiquista ferrenho pode sequer pôr a hipótese de jogar no FC Porto. A não ser, claro, que a profissão se alheie da paixão. Isto significaria que Carlitos, jogador do FC Porto, marcaria golos (certamente uma vez por década, a julgar pela enorme qualidade demonstrada no jogo do Basileia) como tal, apesar de ter, dentro de si, um amor ferrenho pelo eterno rival. Parece-me um paradoxo, mas, se calhar, o problema é meu.

Parece, no entanto, que a febre é contagiosa. Depois de Bergessio, também Di Maria veio falar no FC Porto e nos seus jogadores de forma elogiosa, atitude semelhante à de ser americano e festejar a queda das Torres Gémeas. Resta a pergunta: se lá em cima é tudo tão bom, o que é que ainda cá estão a fazer em baixo? Bem, julgando pelo nível exibicional da equipa ante o Nürnberg FC, acho que a resposta já foi dada: nada.

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