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90 Anos de Glória, 14 de Vadiagem

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Podemos dissertar sobre o Apito Dourado. Culpar o Vale, o Valentim, a Virgem. Mas à frente dos clubes, a representar as instituições, a carregar passados, estão pessoas. Não foram só o Porto, o Boavista e o Sporting que ganharam. Nós também perdemos.

Não sou bom com datas de aniversários e, por isso, esqueci-me da do meu clube. Esquecimento que, pelos vistos, não causou mossa.A verdade é que não haveria muita coisa a relembrar. Sim, bem sei, são muitos anos de história, quase tantos como os de glória. Mas os últimos tempos, ventosos e difíceis, têm teimado em dificultar qualquer celebração. Porque tornam as lembranças dolorosas, quando inevitavelmente as comparamos com as que temos de hoje em dia. Se recordar é viver, chorar também. E é essa a vontade da maioria quando vê o quão caiu o poderoso Benfica, o outrora acordado gigante SLB.

Festejamos, assim, 90 anos de glória pelo décimo-quarto ano consecutivo. E aproveitamos, igualmente, para relembrar os quatorze que se passaram desde o último campeonato - pelo menos, digno desse nome - ganho pelo Benfica. Nesse longínquo ano de 1993/94, o meu clube deu, como dizem os brasileiros, "show de bola". Foi o último. Infelizmente, era ainda pequeno, nessa altura, e não me apercebi da razão dos festejos enlouquecidos na Av. da Liberdade. Ainda assim, peguei na minha caneta benfiquista e dela retirei a bandeira escondida no invólucro de plástico, abanando-a efusivamente,
sem saber, todavia, que o início do fim estava próximo.

Chegou com a contratação de Artur Jorge, um portista inveterado, que tratou de rebentar com a equipa. Desde então, nunca mais recuperámos. Nunca mais o Benfica se comportou como nesse ano. E o FC Porto caminhou para o Penta, arrasando por completo a concorrência. Situação que é, ainda hoje, uma realidade. O Benfica festeja o seu décimo-quarto aniversário a doze pontos do primeiro lugar. Com uma equipa desfeita, um grupo de adeptos descrente e uma direcção que deixa demasiado a desejar. Uma assonância em d. De derrota. De desamor. De descrédito.

Podemos dissertar sobre o Apito Dourado. Culpar o Vale, o Valentim, a Virgem. Mas à frente dos clubes, a representar as instituições, a carregar passados, estão pessoas. Não foram só o Porto, o Boavista e o Sporting que ganharam. Nós também perdemos. E, se perdemos, foi porque ao comando do clube estavam dirigentes que fizeram as escolhas erradas. Sempre. A todo o momento. É verdade que fomos campeões, mas nenhum benfiquista que se preze tirará qualquer prazer dessa conquista. Nunca gostámos de ganhar por sermos apenas menos maus que os outros. Estamos habituados, isso sim, a ser os melhores. E não o fomos. Todos. Sobretudo os que lá puseram os que depois foram buscar quem transformou o Benfica na desgraça que está hoje. Ou seja, nós.

Por isso, os meus parabéns, Benfica. Depois do nonagésimo ano de glória, quatorze da mais pura e santa incompetência. Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa.
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