
O dia 1 de Dezembro de 1954 é a data que assinala um dos maiores feitos da história benfiquista – a inauguração do Estádio do Sport Lisboa e Benfica, popularmente conhecido por Estádio da Luz. Foi o culminar de um sonho de muitos anos, após inúmeras iniciativas e actividades que movimentaram o País e as colónias portuguesas, num esforço gigantesco que merece figurar na história contemporânea de Portugal como um dos seus capítulos mais vibrantes. Podemos classificar o Estádio como um monumento erguido com a vontade de um povo! Após várias décadas sem casa própria, o maior e mais popular clube português conseguia, finalmente, um estádio à imagem da sua dimensão.

Logo que, em Março de 1944, o Clube teve conhecimento de que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) – proprietária do Campo Grande, onde o Benfica jogava desde 05/10/1941 – estava a estudar uma nova localização para o recinto benfiquista, começou a pensar-se na ideia de construir um novo estádio. Porém, os anos foram passando e as Direcções do Clube, eleitas anualmente, mostravam-se incapazes de obter, da CML, terrenos para a edificação do novo campo. Alguns associados descontentes com a situação são eleitos, a 19/01/1946, para a direcção, conseguindo, a 17/05/1946, um encontro no Ministério das Obras Públicas, durante o qual o ministro eng.º Cancela de Abreu se mostra interessado na resolução do problema, afirmando que "o Benfica é de Benfica e para lá tem de voltar!".
Iniciava-se, então, o processo que levaria à construção do estádio actual. Joaquim Bogalho tinha um conjunto de princípios que procurava implementar. O estádio deveria ser feito ao nível do melhor clube português, salvaguardando o seu pagamento imediato, de modo a evitar empréstimos que hipotecassem novamente o futuro, como acontecera com o estádio das Amoreiras havia dois decénios! É que, considerava-se, o enfraquecimento do nosso futebol durante os anos 30 e 40 muito se devera aos pagamentos de empréstimos para a construção desse estádio, o que exaurira o clube ("esse cancro que corroía a nossa existência; um tormento atroz.", nas palavras de Bogalho), conduzindo à debilitação da equipa principal de futebol. Procuravam-se, assim, terrenos amplos e acessíveis na cidade de Lisboa, bem localizados e onde se conseguisse construir um "Parque de Jogos" que fosse ao encontro do eclectismo do Clube.
Procurava-se, por tudo isto, obter terrenos em condições vantajosas: topografia que facilitasse (e não encarecesse) os trabalhos e a um preço acessível, já que o desejo não era arrendar mas sim comprar – o que, para evitar encargos futuros, só viria a ser possível em 21/10/1969. Quanto ao tipo de construção, o ideal seria um estádio sem luxos, mas funcional, à imagem do Benfica, ou seja, um recinto desportivo com uma capacidade de assistência aceitável para a massa associativa (40 000 lugares – o Clube registava 14 334 sócios em 31/12/1949) e erguido a partir de um projecto que comtemplasse a possibilidade de ampliação futura. Depois de delimitados os terrenos em Carnide – entre a estrada de Benfica, a rua dos Soeiros e a azinhaga da Fonte (próximo do local onde estava projectada a nova avenida circular de Lisboa) -, iniciaram-se as expropriações por parte da CML, a 15/11/1949.

A elaboração do projecto do "Novo Parque de Jogos" foi entregue ao arquitecto João Simões, antigo futebolista do Clube, nas categorias inferiores, entre 1925/26 e 1929/30, que teve a sabedoria de conceber um conjunto de recintos desportivos magnífico para o estádio principal e para os espaços desportivos envolventes, uma obra arquitectónica notável, que, apesar de concluída apenas 40 anos depois, seguiu as "linhas gerais" definidas em finais dos anos 40 por João Simões, o que enaltece a genialidade do projecto inicial. Já nos anos 50, iniciam-se as campanhas financeiras que vão viabilizar a construção do estádio. A 27/10/1951, surge a ideia de aumentar voluntariamente a quota de 16$00 para 20$00, dando início à campanha "Fundos para o novo Estádio", que rapidamente tem grande adesão por parte dos associados.
Mas é com a eleição da Direcção presidida por Joaquim Bogalho, em 15/03/1952, que se incrementam diligências para a construção do estádio. Destas, destaca-se a criação da "Comissão Central do Novo Parque de Jogos do SLB", encabeçada por Joaquim Bogalho. A Comissão estimulou e desenvolveu variadas iniciativas e coordenou ideias de outros associados, gerando-se um movimento imparável, exaltado de benfiquismo e que permitiu o êxito das várias iniciativas, devidamente publicitadas no semanário do clube, O Benfica. Após a Assembleia Geral de 16/07/1952 ter autorizado a Direcção a assinar o contrato de ocupação dos terrenos que a CML destinara ao futuro estádio do Clube, entrou-se num período de euforia que só viria a dissipar-se com a inauguração do Estádio.

A visita à Estrada da Luz, 203, local dos terrenos do futuro estádio, determinou o lançamento da campanha de donativos "O Primeiro Impulso", arrancando, desde logo, com 90 000$00. A escritura da cedência dos terrenos efectuou-se na CML, a 06/11/1952. A área foi de 120 000 m2, sob arrendamento mensal de 1 500$00, passando, mais tarde, em Julho de 1954, para 5 000$00, também mensais, mas sempre com a perspectiva de aumentar a área envolvente e garantir a compra dos terrenos, o que realmente viria a acontecer. Em Janeiro de 1953, as dádivas começam a ser recolhidas no "Fundo de Construção do Novo Parque de Jogos do Clube". Quando a 23/05/1953 é adjudicada a empreitada de terraplanagens, pelo valor de 840 000$00, contabilizava-se já, nos "Fundos Pró-Estádio", um total de 1 355 658$00.
A inauguração oficial das obras efectua-se em 14/06/1953. Numa primeira fase, o Clube desenvolve uma intensa campanha para obtenção de fundos: leilões diários na Secretaria, espectáculos pró-estádio, sorteios monumentais e disponibilização de um mealheiro gigante no Pavilhão do Benfica na Feira Popular. São levadas a cabo, também, algumas iniciativas de âmbito cultural, como um concurso de cartazes e outro de quadras populares. O êxito destas acções permite ao Clube guarnecer-se de recursos financeiros para os trabalhos iniciais de terraplanagem do local, por onde vão passando milhares de pessoas que não deixam de colaborar, pagando 10$00 por cada enxadada. Tudo isto com a ajuda do jornal O Benfica, que reserva semanalmente as páginas 4 e 5 (centrais), com o título "Pró-Estádio do Benfica", acompanhando o desenrolar dos acontecimentos e das acções de angariação de fundos e noticiando e promovendo novas iniciativas.

Com a multiplicação dos Festivais Pró-Estádio em vários locais, dentro e fora do país, do Minho a Timor, os trabalhos decorrem sem interrupções, em pleno clima de exaltação. A 30/01/1954, quando se adjudica a empreitada para as fundações das bancadas – pelo valor de 542 330$00 -, havia nos "Fundos" um saldo de 2 336 825$48. Em simultâneo, inicia-se uma gigantesca "Campanha do Cimento". Quando, a 17/05/1954, se inicia a construção das bancadas do 1.º e do 2.º anel, adjudicadas por 5 968 000$00, regista-se um saldo de 2 078 400$48 e assinala-se a entrada no Clube de 9 327 sacos de cimento, correspondendo a 467 toneladas. Em Outubro de 1954, foi criada a campanha "O Último Impulso – Quem não deu que dê agora, quem já deu que torne a dar". O slogan serviu para incentivar os donativos em dinheiro e cimento que se prolongaram para lá da inauguração do estádio, permitindo a Joaquim Bogalho, tal como era seu desejo, pagar o estádio – no valor de 12 037 683$65 – quando deixou o cargo de presidente da direcção, após as eleições de 30/03/1957.
Finalmente, às 11 horas do dia 1 de Dezembro de 1954, o emocionado líder do Clube, e maior responsável pela passagem do sonho à realidade, Joaquim Ferreira Bogalho, abre simbolicamente uma das portas de acesso ao Estádio, inaugurando um dos mais belos recintos desportivos do mundo. O Recinto viria a acompanhar o futuro crescimento desportivo e associativo do Clube. Originalmente com "dois anéis", sem iluminação e isolado, seria mais tarde dotado de torres de iluminação (1958), de um 3º anel construído em duas fases (1960 e 1985, permitindo aumentar a sua lotação para 70 000 e 120 000 pessoas, respectivamente) e de inúmeras infraestruturas desportivas à sua volta. A 04/01/1987, por ocasião da 15.ª jornada do Campeonato Nacional de 1986/87, frente ao FC Porto, o Estádio da Luz registaria a maior assistência de sempre: 135 000 pessoas!

A importância da nova casa, onde o Benfica dispunha pela primeira vez na sua história de um campo relvado revelou-se logo na época da sua inauguração, com a conquista do título de Campeão Nacional, que escapava desde 1950. Muitos clubes passaram então a sentir o "efeito Luz", saindo, com frequência, goleados do majestoso reduto. Que o digam alguns dos mais reputados emblemas do futebol internacional, que sucumbiram, em jogos da Taça dos Campeões, ao efeito terrível da "Catedral": 6-2 ao Ujpest da Hungria (06/11/1960), 5-1 ao Áustria de Viena (08/11/1961), 6-0 ao campeão alemão, FK Nuremberga (22/02/1962), e 5-1 ao finalista europeu de 1964, o Real Madrid (24/02/1965). Em jogos com clubes portugueses, os exemplos são igualmente vastos: 9-0 ao Boavista, para o Nacional (07/02/1960), 6-0 ao FC Porto, para a Taça (30/04/1972), 5-0 ao Sporting, para o Nacional (19/11/1978) e 8-0 ao Belenenses, para o Nacional (30/03/1980).
Entre outros, foi também na Luz que o Benfica comemorou 23 (2 "bis" e 4 "tris" pelo meio) dos seus 30 títulos de Campeão Nacional, o apuramento para 23 finais da Taça de Portugal (tendo 16 resultado na obtenção do troféu), 7 passagens à final da Taça dos Clubes Campeões Europeus e a disputa da 2.ª mão da final da Taça UEFA, em 18/05/1983. Tendo como referência a vitória 2700 do Clube (curiosamente, 2300 com adversários portugueses), registada em 12/01/2002, data em que o Benfica defrontou, para o Nacional de 2001/2002, o Varzim SC (3-2), já se tinham jogado, até essa data, 1068 jogos no Estádio da Luz, desde a sua inauguração em 01/12/1954. A vitória 400 com adversários estrangeiros foi, também, conseguida no nosso Estádio, a 05/08/2001.

No total de 1075 jogos realizados, o Benfica somou 846 vitórias, 167 empates e apenas 62 derrotas, tendo marcado 3121 golos e sofrido 692. Entre 02/03/1969 e 18/12/1973, o Benfica registou a espantosa marca de 91 jogos consecutivos sem perder, com 80 vitórias e 11 empates. De assinalar, também, o registo fantástico de 37 vitórias consecutivas, alcançadas entre 01/12/1979 e 22/04/1981. Em breve, a velha Luz irá "apagar-se", sacrificada ao Euro/2004. Mas o universo do futebol jamais esquecerá aquele que é carinhosamente conhecido no mundo por "stadium of light", um Estádio onde se disputaram alguns dos melhores jogos de futebol realizados na 2.ª metade do séc. XX.
|
Estádio do Sport Lisboa e Benfica – Características |
||
|
Nome |
Estádio do SLB (popularmente conhecido por Estádio da Luz) |
|
|
Localização |
Benfica (S. Domingos) – terrenos à direita da Azinhaga da Fonte, que liga o Calhariz de Benfica ao Largo da Luz, em Carnide |
|
|
Datas de posse |
6 de Novembro de 1952 |
|
|
Superfície aproximada |
Em 1954: 122 000 m2 |
|
|
Tipo de Propriedade |
Privada |
|
|
Custo dos Terrenos (aluguer em 1954) |
5 000$00 / mês |
|
|
Custo dos Terrenos (compra a 21/10/1969) |
3 216 000$00 |
|
|
Custo das Terraplanagens |
840 000$00 |
|
|
Custo das Drenagens e Arrelvamentos |
739 880$00 |
|
|
Custo das Fundações |
542 330$00 |
|
|
Custo da Construção (2 anéis) |
5 968 000$00 |
|
|
CUSTO TOTAL(1956) |
12 037 683$65 |
|
|
Custo das Torres de Iluminação (1958) |
4 135 464$65 |
|
|
Custo do 3.º anel (1960) |
15 815 947$50 |
|
|
Custo do Fecho do 3.º anel (1985) |
521 673 020$10 |
|
|
Data da inauguração e 1º jogo |
01/12/1954, com o FC Porto |
|
|
Maior assistência |
135 000 pessoas (04/01/1987, com o FC Porto – CN I Divisão) |
|
|
Outras instalações |
Pavilhão dos Desportos (15/05/1965) |
|
|
Resultados totais no Estádio do SLB (01/12/1954 a 28/04/2002) |
||||||
|
Competição |
Jogos |
Vitórias |
Empates |
Derrotas |
Golos Marcados |
Golos Sofridos |
|
Totais |
1075 |
846 |
167 |
62 |
3121 |
692 |
|
Nacionais |
879 |
717 |
124 |
38 |
2692 |
540 |
|
Internacionais |
196 |
129 |
43 |
24 |
429 |
152 |
|
Campeonato Nacional |
697 |
562 |
109 |
26 |
2034 |
417 |
| Taça de Portugal |
131 |
119 |
9 |
3 |
556 |
66 |
| Taça Clubes Campeões Europeus |
71 |
53 |
14 |
4 |
195 |
44 |
| Taça Cidade Feiras / UEFA |
26 |
13 |
9 |
4 |
41 |
20 |
| Taça Vencedores Taças |
21 |
16 |
3 |
2 |
45 |
11 |
| Torneios Internacionais |
12 |
9 |
2 |
1 |
22 |
8 |
| Torneios Nacionais |
7 |
5 |
1 |
1 |
12 |
6 |
| Supertaça "Cândido de Oliveira" |
13 |
7 |
1 |
5 |
15 |
18 |
|
Taça de Honra da AFL |
10 |
8 |
1 |
1 |
21 |
7 |
|
Taça Intercontinental / FIFA |
2 |
1 |
0 |
1 |
3 |
5 |
|
Particulares Internacionais |
64 |
37 |
15 |
12 |
123 |
64 |
|
Particulares Nacionais |
21 |
16 |
3 |
2 |
54 |
26 |
|
Grandes Jogos |
|||
|
Data |
Resultado |
Observações |
|
|
07/02/1960 |
Vitória 9-0 |
Campeonato Nacional da I Divisão. |
|
|
06/11/1960 |
Vitória 6-2 |
Taça dos Clubes Campeões Europeus (1/8 final, 1.ª mão). |
|
|
08/11/1961 |
Vitória 5-1 |
Taça dos Clubes Campeões Europeus (1/8 final, 2.ª mão). |
|
|
22/02/1962 |
Vitória 6-0 |
Taça dos Clubes Campeões Europeus (1/4 final, 2.ª mão). |
|
|
24/02/1965 |
Vitória 5-1 |
Taça dos Clubes Campeões Europeus (1/4 final, 1.ª mão). |
|
|
06/10/1965 |
Vitória 10-0 |
Taça dos Clubes Campeões Europeus (1/16 final, 2.ª mão) (1). |
|
|
30/04/1972 |
Vitória 6-0 |
Taça de Portugal (meia final). |
|
|
19/11/1978 |
Vitória 5-0 |
Campeonato Nacional da I Divisão. |
|
|
30/03/1980 |
Vitória 8-0 |
Campeonato Nacional da I Divisão. |
|
|
11/01/1989 |
Vitória 14-1 |
Taça de Portugal (1/16 final) (2). |
|